quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Insensatez

Meu insensato lado de lá,
que se insinua
na segura corrente em que vivo.
Que me deseja nua, na rua,
tonta de tanto riso,
afugentando a demência de tanto siso.

Meu sensato lado de cá,
que equilibrista me faz,
e foge do perigo,
e em redoma segura se fecha,
e prende as cordas.
Torna cansativa paz a quietude.
Secreta-me um degredo,
sem mistério, sem segredo.

Ah! Insensatez que não se impõe!
Minha incerta parte que não se expressa!
Arrebenta de vez o quadrado.
Faz pontudo, faz de conta,
faz tudo que insensato pareça.
Impede que a sensatez me emudeça.
Faz-me lenta, prazerosa,
liberta de cercas, à toa,
insensata, misteriosa.

Oldair Marques

domingo, 21 de dezembro de 2008

Doze Luas

A Lua – cheia
Para ela – sempre
Olhávamos em ditongo.
Cúmplices lunáticos
A olhar o luar.

A Lua branca
O céu azul
Os olhos castanhos, vinho tinto.
Nuances coloridas
Tingindo o cinza cotidiano.

A Lua – onírica
Nossos olhos e o luar
Magia, arte e poesia
Lunáticos amantes
A amar ao luar

A Lua – solitária
Para ela – agora
Nossos olhos em hiato
Terráqueos a sós
A ignorar o luar.

José Rosa (ZeRo S/A)

domingo, 14 de dezembro de 2008

Olha Aí Freguesa!

Olha aí freguesa!
Tenho um produto para lhe oferecer!
É mercadoria de primeira, pode levar.
Em toda a feira
Melhor não irá encontrar.


Nem me dá atenção
E só quer saber
Dos produtos oferecidos de baciada.

Olha aí freguesa!
Faço para a senhorita uma promoção!
Boa oportunidade! É produto raro!


Passa reto por mim
E na barraca ao lado compra xepa
Mesmo pagando muito caro

Olha aí freguesa!
Tenho uma proposta para a senhorita.
Leva o produto e não paga nada.
Leva para experimentar.
A senhorita parece ser inteligente e ter bom gosto
Tenho certeza que irá apreciar

Mostra-se interessada, mas meio desconfiada.

Pode levar com confiança
E até mais minha freguesa!
A sua satisfação é também minha.
E tenho certeza de que para a minha humilde barraca
Sempre irá retornar.

Ela leva o meu produto prometendo degustar

Olá querida freguesa! Que alegria!
Não falei que a senhorita voltaria?

Me devolve a mercadoria, intacta e sem ser experimentada,
Com cara de empáfia e desprezo
E sem falar nada
Vai pela feira enchendo a sua sacola de porcariada.

Olha aí minha freguesa!
Parei de oferecer coisa boa.
Agora só ofereço produtos adulterados, falsificados e sem qualidade.
Corre freguesa, não vacila,
Pois é grande a demanda.
Corre, senão para a senhorita não sobra nada.


José Rosa (ZeRo S/A)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Errar Não É Um Erro (Junho/1987)

Não fique triste por ter errado,
Isso quase sempre acontece,
É uma questão de religião, política, idealismo de vida, sexo, poder aquisitivo.
Pode ser até um fator positivo.
Não fique triste por ter errado.
Errando que se descobrem os erros.
Quando não há erros,
Não se tem certeza de se ter acertado.
Não fique triste por ter errado.
Erro, logo existo e ninguém pode negar.
O erro é o amigo da perfeição,
E quem erra, seus erros irá espantar.
Todo mundo vive errado.
O mundo todo é um erro.
Todo mundo age errado.
Um mundo todo de erros é onde erramos.
Seres errôneos que nascem, vivem, agem e etc. e tal errado.
São erros de português, erros de cálculo,
Erros de arbitragem, erros de emissão e admissão.
São datas erradas, horas erradas,
Homens e mulheres errados, pessoas erradas.
Erra-se por pouco, por burrice, por inocência,
Por distração, por sã consciência.
Erra-se de todas as formas.
São erros de todos os tipos.
Enfim,
Não fique triste por ter errado,
Isso quase sempre acontece.

José Rosa (ZeRo S/A)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Cenas de TV / Produtos Perecíveis (1989)

Estava branco o muro
da casa que abrigava o cadáver gelado
Estava piegas a festa
da pessoa que derramava lágrimas geladas
Estavam fortes as lembranças
do casal que trocavam carícias geladas

Estava forte o muro
da casa que derramava lágrimas geladas
Estava branca a festa
da pessoa de carícias geladas
Estavam piegas as lembranças
do casal que abrigava o cadáver gelado

Estavam brancos os muros
Estavam piegas as festas
Estavam fortes as lembranças
Estava gelado o cadáver
Como as lágrimas derramadas
Como as carícias trocadas

José Rosa (ZeRo S/A)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Oração Quase Pagã (Fevereiro/1990)

Deus me proteja
Do que é falso
Do que não corresponde à verdade
Da ilusão

Deus me proteja
Da morte em vida
Da vida sem sorte
Do amor mundano

Deus me proteja
Das pessoas incorrigivelmente tristes
Dos homens em papéis de homens
Das mulheres em papéis de mulheres

Deus me proteja
Da solidão amarga
Do sexo irracional
Do egoísmo cego

Deus me proteja
Agora que perdi a inocência
Agora que estou à mercê da tentação
Agora que levei a primeira pedrada

José Rosa (ZeRo S/A)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Devastação

Meu passeio por ti
Nunca é calmo
Nunca há calmaria
Tremores sempre há.

Tuas planícies,
Teu cerrado, montanhas e canyons
Abalam-se ao meu passar.
Cinco, seis, sete, oito, nove graus na escala Richter

Passo e devasto tua paisagem
Sou como um deus impiedoso,
Porém tu és fênix
E sempre te recompões,

E em outra noite
Me abres desejosa
Teus caminhos para que eu passe
E novamente te devaste.

José Rosa (ZeRo S/A)

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Outros Dias

Há dias que ela não é ela.
É ela, mas de uma forma diferente.
Meio down, meio sem luz,
Meio fugitiva, meio ermitã,
Menos sensual, meio sem tesão.

Há dias que eu preciso me conter.
Usar (muito) melhor as palavras,
Ser menos macho e mais homem,
Fingir de morto, ser (mais) ouvinte,
Contar até 10 vezes 1000 e
Nem pensar em deixar a toalha sobre a cama.

Há dias que ela não entende as minhas figuras de linguagem.
Não entende minhas metáforas,
Nem a minha ironia, nem meus eufemismos.
Confunde compensações com explicações,
E para cima de mim solta os seus cães.

Porém, há os outros dias
E então... é somente alegria.

José Rosa (ZeRo S/A)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Cor-de-Rosa

A musa deste poema
Tem uma linda boca.
Que pena, não é minha.
Tem uma boca
Que não é vermelha,
Que não é fogo,
Que não é louca,
E que pena, não é minha.
Essa boca é preciosa,
Porque é rosa, cor-de-rosa.
A cor e a forma dessa boca
Não é grito é sussurro ao ouvido,
Que inunda a alma de êxtase.
Que perfuma tudo,
Porque é rosa, cor-de-rosa.
E que pena, não é minha.
A musa deste poema
É menina bela, mas,
Não falarei dela
Do que quero é falar
De sua doce boca
Não grande, não pequena.
E é rosa, cor-de-rosa.
E não é minha, que pena.
Meus olhos me dizem que
Igual a essa, lembrança não temos.
Nunca mais esquecer iremos
Porque ela é rosa,
É cor-de-rosa.
É sutil sedutora
Porque engana, se faz de mansa,
Então devora.
E que pena,
Infelizmente não é minha.
Porém em sonho um dia foi.
Tão real que na minha boca acordada
Sabor diferente tinha.
Era rosa, cor-de-rosa.

José Rosa (ZeRo S/A)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Comunhão

Tua boca não vacila e
Tuas mãos carinhosamente firmes
Me direcionam a ela.
Falo
Gula - pecado capital.
Tua boca me prende - conexão.

Em libidinosa penitência
Ajoelhada em devoção a mim,
Te ofereço minha hóstia e
Recebes agradecida.
Nossa comunhão.