sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Cenas de TV / Produtos Perecíveis (1989)

Estava branco o muro
da casa que abrigava o cadáver gelado
Estava piegas a festa
da pessoa que derramava lágrimas geladas
Estavam fortes as lembranças
do casal que trocavam carícias geladas

Estava forte o muro
da casa que derramava lágrimas geladas
Estava branca a festa
da pessoa de carícias geladas
Estavam piegas as lembranças
do casal que abrigava o cadáver gelado

Estavam brancos os muros
Estavam piegas as festas
Estavam fortes as lembranças
Estava gelado o cadáver
Como as lágrimas derramadas
Como as carícias trocadas

José Rosa (ZeRo S/A)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Oração Quase Pagã (Fevereiro/1990)

Deus me proteja
Do que é falso
Do que não corresponde à verdade
Da ilusão

Deus me proteja
Da morte em vida
Da vida sem sorte
Do amor mundano

Deus me proteja
Das pessoas incorrigivelmente tristes
Dos homens em papéis de homens
Das mulheres em papéis de mulheres

Deus me proteja
Da solidão amarga
Do sexo irracional
Do egoísmo cego

Deus me proteja
Agora que perdi a inocência
Agora que estou à mercê da tentação
Agora que levei a primeira pedrada

José Rosa (ZeRo S/A)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Devastação

Meu passeio por ti
Nunca é calmo
Nunca há calmaria
Tremores sempre há.

Tuas planícies,
Teu cerrado, montanhas e canyons
Abalam-se ao meu passar.
Cinco, seis, sete, oito, nove graus na escala Richter

Passo e devasto tua paisagem
Sou como um deus impiedoso,
Porém tu és fênix
E sempre te recompões,

E em outra noite
Me abres desejosa
Teus caminhos para que eu passe
E novamente te devaste.

José Rosa (ZeRo S/A)

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Outros Dias

Há dias que ela não é ela.
É ela, mas de uma forma diferente.
Meio down, meio sem luz,
Meio fugitiva, meio ermitã,
Menos sensual, meio sem tesão.

Há dias que eu preciso me conter.
Usar (muito) melhor as palavras,
Ser menos macho e mais homem,
Fingir de morto, ser (mais) ouvinte,
Contar até 10 vezes 1000 e
Nem pensar em deixar a toalha sobre a cama.

Há dias que ela não entende as minhas figuras de linguagem.
Não entende minhas metáforas,
Nem a minha ironia, nem meus eufemismos.
Confunde compensações com explicações,
E para cima de mim solta os seus cães.

Porém, há os outros dias
E então... é somente alegria.

José Rosa (ZeRo S/A)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Cor-de-Rosa

A musa deste poema
Tem uma linda boca.
Que pena, não é minha.
Tem uma boca
Que não é vermelha,
Que não é fogo,
Que não é louca,
E que pena, não é minha.
Essa boca é preciosa,
Porque é rosa, cor-de-rosa.
A cor e a forma dessa boca
Não é grito é sussurro ao ouvido,
Que inunda a alma de êxtase.
Que perfuma tudo,
Porque é rosa, cor-de-rosa.
E que pena, não é minha.
A musa deste poema
É menina bela, mas,
Não falarei dela
Do que quero é falar
De sua doce boca
Não grande, não pequena.
E é rosa, cor-de-rosa.
E não é minha, que pena.
Meus olhos me dizem que
Igual a essa, lembrança não temos.
Nunca mais esquecer iremos
Porque ela é rosa,
É cor-de-rosa.
É sutil sedutora
Porque engana, se faz de mansa,
Então devora.
E que pena,
Infelizmente não é minha.
Porém em sonho um dia foi.
Tão real que na minha boca acordada
Sabor diferente tinha.
Era rosa, cor-de-rosa.

José Rosa (ZeRo S/A)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Comunhão

Tua boca não vacila e
Tuas mãos carinhosamente firmes
Me direcionam a ela.
Falo
Gula - pecado capital.
Tua boca me prende - conexão.

Em libidinosa penitência
Ajoelhada em devoção a mim,
Te ofereço minha hóstia e
Recebes agradecida.
Nossa comunhão.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Imposição

Minha Querida,
Não quero que deixe de sair com suas amigas e
Não é meu desejo que largue o seu emprego,
Abandone nenhum dos seus sonhos ou
Desista de seus planos.
Nunca pensei que tivesse o direito de lhe proibir a minissaia.
Olha, pode acreditar
Sua essência, nem por sonho quis mudar.
Não lhe peço que mude nada
Não lhe peço que largue nada
Não lhe peço que faça nada
Que não seja realmente importante.
Só uma coisa faço questão de lhe impor
Por nenhuma bobagem, nenhuma frescura ou vaidade
Desista de nós, desista de mim.

José Rosa (ZeRo S/A)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Falsas Palavras (Março/1991)

Se de alguma forma
Pudesse eu detectar
A verdade ou a mentira em suas palavras
Talvez eu me matasse
Para nunca mais sentir o gosto da dúvida.

José Rosa (ZeRo S/A)

domingo, 31 de agosto de 2008

Momentos e Eternidade

O romantismo exige belas palavras
Súplicas e juras de amor eterno
Floreios e galanteios,
Entretanto quando nos amamos
Você sentada no meu colo,
Mexendo-se e fazendo meu falo explodir
Perco a compostura e a elegância
E lhe faço reverências verdadeiras para o momento:
Você é puta!
Você é minha puta!
E só depois de acalmados os ânimos
Romântico padrão volto a ser
Sussurro no seu ouvido : Te amo!
E tenha certeza
Que eu sempre te amo.

José Rosa ( ZeRo S/A)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Metalinguagem

Meta
Metade disto
Está na outra metade
Linguagem
Sua língua
Dentro de minha boca
Sua boca
Tendo minha língua

José Rosa ( ZeRo S/A)